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Frank Lloyd Wright: o gênio e o monstro!!!


Em meados dos anos 30, aos 66 anos, quando seus rivais o consideravam um velho ultrapassado, o arquiteto americano Frank Lloyd Wright (1867-1959) conseguiu uma pequena encomenda.

Dono de uma cadeia de lojas de departamentos, o empresário Edgar J. Kaufmann chamou-o para projetar uma casa de campo no interior do Estado da Pensilvânia. Em meio a um bosque que escondia uma cachoeira paradisíaca, Wright produziu junto com seus assistentes uma planta topográfica com a localização exata de cada rocha e árvore do lugar. Nascia ali a casa Fallingwater (Cascata), a mais célebre residência modernista do planeta. Com esse projeto, Wright começaria a reverter a opinião negativa de seus críticos!?!? Naquele tempo, com idade suficiente para pensar em aposentadoria, ele iniciou a fase mais criativa de sua carreira!!!

Passados 57 anos após a sua morte, não resta a menor dúvida de que Frank Lloyd Wright é ainda considerado o maior arquiteto norte-americano (apesar de tantos extraordinários que o país tem…) e provavelmente um dos maiores de toda a história da arquitetura. Autor de projetos monumentais, ele criou obras-primas, como o museu Guggenheim de Nova York, sua casa-estúdio Taliesin, no Estado do Wisconsin, além da própria Fallingwater. Com a arrogância própria dos gênios, ele adorava autopromover-se. Certa vez, ouviu de um amigo o elogio de que ele era um dos melhores arquitetos do país. Respondeu: “Por que apenas um dos melhores? E por que apenas dos Estados Unidos da América (EUA)? Desafio qualquer um a apontar um aspecto da arquitetura modernista que não tenha sido criado por mim!!!”.

Entretanto, deve-se recordar que no verão de 1935, a futura Fallingwater parecia condenada a jamais sair do papel!?!? Durante alguns meses após sua visita ao terreno onde a casa deveria ser erguida, Wright simplesmente ignorou o projeto. Meses depois, o cliente ligou querendo ver a planta. Mesmo sem ter feito um único rabisco, o arquiteto não se abalou. Disse ao cliente no telefone: “Apareça. Sua casa está pronta!!!”. Só então Wright decidiu debruçar-se sobre a prancheta. Assistido por uma silenciosa plateia formada por seus alunos e assistentes, trabalhou intensamente. Durante mais de duas horas, parecia que suas ideias iam sendo desenhadas como num passe de mágica!!! O que sem dúvida evidenciou que ele já vinha pensando naquele projeto havia algum tempo… É o que se chama de incubar um problema, não é?

Lembrou um seu ex-aluno, o arquiteto Edgar Tafel: “Wright inicialmente desenhou o 1º andar da casa e em seguida o 2º andar. Depois as varandas e aí explicou o motivo da ponte onde Kaufmann e a esposa, Liliane, sairiam dos quartos para fazer um piquenique.”

Pouco depois chegou Kaufmann, recebido com entusiasmo por Wright. “Que bom revê-lo, Kaufmann. Estávamos mesmo o aguardando!” Em cada um de seus detalhes, a Fallingwater tinha sido desenhada em menos de três horas. Seu projeto era uma espécie de manifesto da “arquitetura orgânica” de Wright, um estilo que a um só tempo defendia o predomínio da técnica sobre a natureza tanto quanto a comunhão das pessoas com o meio ambiente. Mas, ao projetar a casa, Wright tinha ultrapassado seu próprio limite, impondo-se uma situação de extrema pressão emocional. Isso era algo que ele se infligia desde a juventude — e que voltaria a fazer repetidamente até morrer.

De fato, o estilo de Frank Lloyd Wright tornou-se inconfundível e paradoxal, como o próprio arquiteto. Suas casas são, ao mesmo tempo, monumentais e intimistas. Apesar da grandeza da obra de Frank Lloyd Wright, ela foi manchada pelas encrencas em que o arquiteto se meteu em quase todos os lugares por onde andou… Tal como uma escultura, que depois de pronta origina um amontoado de pedregulhos descartados pelo artista, um prédio terminado também deixa muito entulho de sobra.

A casa Fallingwater, em meio a um bosque, que transformou-se em referência mundial.

A casa Fallingwater, em meio a um bosque, que transformou-se em referência mundial.

Meryle Secrest, a maior biógrafa de Wright, contou: “É impossível olhar para Wright sem se impressionar com a dimensão de seus feitos. No caso dele, estamos diante de um gênio, alguém raro de ver na vida real. Por outro lado, quando se considera o cidadão Wright, temos alguém à mercê de suas emoções, apenas um ser humano. Os mais chegados — a sua família, os amigos e os colegas de trabalho — pagaram caro para conviver com ele. Tinha uma ambição desmedida, além de permanente falta de habilidade para viver de acordo com suas posses. Para começar, abandonou a primeira mulher e os filhos sem o menor escrúpulo. Profissionalmente, faturou de forma indevida o crédito de um projeto feito por seu mentor, Louis Sullivan. Muitas vezes pediu dinheiro emprestado, mas raramente honrou suas dívidas.”

Wright casou-se com Catherine (“Kitty”) Tobin, uma bela garota sulista de 18 anos, filha de uma próspera família sulista. Em alguns anos de casados, eles teriam seis filhos — quatro meninos e duas meninas. Mas pouco antes de completar vinte anos de casamento, Wright se tornou irremediavelmente irritadiço, numa época em que ele e Kitty já viviam cada um de seu lado. Ele odiava até mesmo ser chamado de “papai” pelos filhos. Finalmente, em 1909, ele fugiu para a Europa com Mamah Cheney, o grande amor de sua vida, que era casada com um amigo e cliente dele!?!?

Disse Wright na época: “Parti em busca do desconhecido, para testar minha fé na liberdade, como já havia provado minha fé no trabalho.” Em 1911, então com 44 anos, Wright, junto com Mamah – que obtivera seu divórcio – começou a construir no interior do Estado de Wisconsin, no vilarejo de Spring Green, a sua casa Taliesin (uma palavra galesa que significa “cume brilhante”), que se tornaria sua obra-prima pessoal e seu quartel-general por quase meio século. Para ele, Taliesin era a encarnação perfeita de sua “arquitetura orgânica”.

Wright e Mamah vieram ali por três anos até que o mordomo e caseiro, o índio Julian Carlton, revoltado por ter sido demitido por Mamah, matou-a com um machado e um filho do primeiro casamento dela, além de outras cinco pessoas, e ainda incendiou Taliesin.

Wright e sua esposa Olgivanna Ivanovna Milanoff Hinzenberg em 1957.

Wright e sua esposa Olgivanna Ivanovna Milanoff Hinzenberg em 1957.

Em 1924, Wright conheceria a segunda mulher mais importante de sua vida, Olgivanna Ivanovna Milanoff Hinzenberg, uma dançarina nascida no leste europeu. Enquanto embarcava nessa nova paixão, ele se separava de mais uma mulher, Miriam Noel, uma viúva ricaça que tinha caído de amores por ele. Depois do casamento, Miriam, que inicialmente o chamava de “o senhor dos meus sonhos despertos”, tornou-se uma pessoa violenta, instável e viciada em morfina. Wright rompeu com Miriam — e aí Olgivanna mudou-se para Taliesin. Ela logo engravidou, dando a ele mais uma filha, Iovanna Wright.

Olgivanna foi essencial para o sucesso posterior do arquiteto. Em 1932, aos 65 anos, ele mantinha um ritmo intenso de trabalho. Na verdade, seu período mais criativo apenas começara. Seu problema principal, na época, era sobreviver. A crise econômica – a Grande Depressão –, deflagrada em 1929 devastara os EUA (e o mundo…), e poucas empresas se mostravam dispostas a contratar um arquiteto famoso pelo seu temperamento irascível e por sempre estourar o orçamento de seus projetos. Foi então que Olgivanna sugeriu que Wright lançasse uma escola, atraindo jovens estudantes admiradores de sua obra — gente disposta a pagar US$ 650 ao ano (muito dinheiro naquela época…) para ficar junto do grande arquiteto. Nessa escola, os alunos tinham, além de lições de arquitetura, horas de trabalho braçal no reparo das construções, palestras esotéricas, pois Wright e Olgivanna eram discípulos do místico greco-armênio George Ivanovitch Gurdjieff, que tinha um grande sucesso entre a intelectualidade, postulando que os seres humanos passavam a vida alienados de si próprios… Assim surgiu a Comunidade Taliesin, que teve bastante sucesso e o êxito continuou com construção de Fallingwater. E isso se comprovou quando o rei do cobre norte-americano Solomon R. Guggenheim lhe pediu, em 1943, já com 76 anos, para criar o museu Guggenheim na Quinta Avenida, em Nova York.

Na primavera de 1959, com o Guggenheim quase terminado, Wright estava supervisionando os detalhes finais da ampliação de seu estúdio no Arizona quando começou a se queixar de dores no estômago.  A cirurgia correu bem, mas poucos dias mais tarde Wright morreu calmamente enquanto dormia, aos 91 anos. Seus discípulos colocaram o caixão num caminhão e dirigiram durante 28 h até o Wisconsin. Em Taliesin, o corpo foi colocado numa carroça coberta de flores, como no enterro de Mamah Cheney, sendo sepultado a apenas alguns metros dela. Frank Lloyd Wright viveu de forma heroica e conturbada. Legou ao mundo uma obra colossal, o testemunho de um gênio moderno!!!

Quem quiser “enfronhar-se” no trabalho de Frank Lloyd Wright, deve ter ou ao menos folhear esse livro.

Quem quiser “enfronhar-se” no trabalho de Frank Lloyd Wright, deve ter ou ao menos folhear esse livro.

É importante destacar que todo aquele que quer ser arquiteto (ou já é…) – um integrante que impulsiona a economia criativa (EC) – deveria ter ao menos um grande livro sobre as obras desse fenomenal arquiteto e uma sugestão é aquele escrito por Thomas A. Heinz, The Vision of Frank Lloyd Wright.

Conteúdo produzido pela redação da revista Criática.

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